Conhecimento e responsabilidade
Missão Geremia
Uma narrativa sobre civilização, conhecimento e as consequências que surgem quando o desenvolvimento técnico não é acompanhado pelo amadurecimento da consciência.
O pequeno Raphael espreguiçou-se e abriu os olhos.
Lá fora, pintando o horizonte de ouro, o Sol começava a nascer, iluminando mais um dia daquele ano de 8635.
Raphael levantou-se e chegou à janela, que refletiu sua imagem.
Estava crescendo rapidamente. Em breve poderia participar de alguma excursão com os Colonizadores.
Sorriu ao pensar como seria maravilhoso cruzar os espaços naquelas naves imensas, levando a outros mundos o conhecimento de seu povo.
Abriu a janela e olhou para fora.
Foi então que viu aparecer ao longe aquela esfera translúcida que se aproximava sem ruído, poucos centímetros acima do solo.
Firmou a vista para ver quem vinha dentro dela e seu rosto iluminou-se.
Era Daniel.
Correu para fora para recebê-lo.
Fazia tanto tempo que ele partira. Um ano...
A esfera parou e pousou no chão.
Uma abertura apareceu e, por ela, Daniel saiu.
Abraçaram-se em silêncio.
— Você cresceu, garoto. Está quase um homem!
Raphael olhou-o com um sorriso brejeiro.
— Eu já sou um homem. Acho que agora posso sair em viagens. Você me leva na próxima?
Pelo rosto de Daniel passou uma nuvem de tristeza.
— Ainda não. Minha próxima viagem não será muito agradável. Não vai ser coisa para criança.
— Algum problema?
Daniel passou a mão pelos cabelos louros e revoltos do menino.
— Vamos entrar. Eu conto tudo para você.
Entraram e Raphael ainda teve que esperar um pouco, enquanto o amigo entrava na câmara de esterilização, deixava suas roupas de viagem e as trocava por outras, mais leves.
Enquanto Daniel se trocava, Raphael, ansioso, encostou-se à entrada da câmara.
— Onde estão os outros? — perguntou em voz alta.
Lá de dentro veio a resposta:
— Ficaram. Vim rapidamente resolver alguns problemas com o Grande Mentor e trazer amostras, mas tenho que voltar logo.
— Uriel e Samael estão me esperando para iniciarmos nossa nova missão.
— Esta nova missão ainda será no mesmo planeta?
— Ainda. As coisas por lá não vão indo bem.
A câmara de esterilização abriu-se e Daniel saiu, vestindo um macacão aluminizado.
Pegou Raphael pela mão e dirigiram-se a um assento macio, diante de uma mesa longa e baixa.
Raphael mal continha sua ansiedade.
— Conte. Qual é o problema?
Daniel respirou fundo.
— Você deve se lembrar daquele dia em que Asachiel e Michael chegaram de uma missão e procuraram o Grande Mentor com novidades. Lembra?
Raphael fez que sim com a cabeça.
Lembrava-se muito bem.
Os dois Colonizadores haviam chegado e procurado o Grande Mentor às pressas.
Pareciam ter descoberto algo muito importante, mas ninguém tivera o trabalho de lhe explicar o que era.
Deixaram-no tão curioso.
Coisa enjoada ser criança.
E aquilo acontecera pouco mais de um ano antes.
— Pois bem. Asachiel e os outros, na volta para cá, encontraram um sistema muito parecido com o nosso.
— Mas havia um grande problema com um de seus planetas.
— Era um dos planetas menores, mas apresentava um imenso perigo que poderia alastrar-se por uma parte enorme do Universo.
— Tudo indicava que seus habitantes haviam descoberto a desintegração do átomo e provocado uma grande explosão.
Raphael sentiu um arrepio de horror percorrer sua espinha.
Sabia bem o perigo que aquilo poderia provocar.
Uma explosão nuclear era como uma doença, espalhando gases mortais para outros planetas e outros sistemas.
Daniel continuou:
— O Grande Mentor resolveu então mandar uma expedição para verificar o que poderia ser feito, impedindo a propagação dos gases venenosos.
— Fomos escolhidos.
— Partimos há um ano, Uriel, Samael, Anael, Gabriel e eu, todos sob o comando de Elohim.
— Quando chegamos lá, a visão que tivemos foi terrível.
— O pequeno planeta estava completamente envolto em gases densos que, por sorte, ainda não haviam começado a se alastrar.
— A densidade era tanta que nem os raios do Sol conseguiam penetrar.
— Julgamos então que já não deveria haver vida naquele lugar.
— Fizemos aquilo que deve sempre ser feito nesses casos.
— Emitimos uma forte intensidade de raios Epsílon e, com eles, rapidamente dissolvemos a camada de gases.
— Então sentimos uma pena enorme ao vermos o tamanho da destruição.
— O pequeno planeta estava arrasado.
— A pouca vegetação que sobrara não crescia. Atrofiava-se longe do calor dos raios do Sol.
— As águas estavam contaminadas e o ar, irrespirável.
— Para nossa surpresa, vimos surgir alguns seres humanos, remanescentes da grande catástrofe.
— Mas eram quase animais.
— Tinham rostos apavorados, tremiam de medo diante de nossa aproximação e cobriam os olhos para se esconderem da luz do Sol que havíamos feito voltar a iluminar seu mundo.
— Quando se acostumaram à claridade, passaram a nos ver com muito respeito.
— Entendemos que pensavam que éramos deuses.
— Melhor assim. Tornaria nosso trabalho mais fácil.
— Passamos então à nova etapa da missão: a descontaminação das águas.
— Logo pudemos aglomerá-las, separando-as das terras.
— Com o Sol, veio a evaporação natural e logo caíram as primeiras chuvas.
— Com as chuvas, espalhamos pela superfície terrestre uma forte vibração de raios Tseta e as plantas reagiram.
— Pudemos semear amostras de sementes que trazíamos e vimos que era bom.
— Tudo cresceu e deu frutos.
— Nas águas lançamos ovos de animais aquáticos que, ao contato com nossos raios, nasceram e se reproduziram naturalmente.
— Aproveitamos alguns animais ainda existentes e provocamos várias mutações nas espécies.
— Com o ser humano, se é que se podia chamar aquilo de humano, provocamos alterações genéticas.
— Depois de algumas tentativas, conseguimos um bom protótipo andrógino, macho-fêmea.
— E veja que tudo isso foi feito em pouco tempo.
— Sete dias, e estava tudo pronto.
— Descansamos então, enquanto observávamos nosso trabalho evoluir naturalmente.
— Mas percebemos que nosso humano andrógino não se harmonizava bem com a natureza daquele mundo, pois tudo ali era dual, masculino e feminino.
— Tivemos que fazê-lo passar por um sono anestésico, enquanto modificávamos a estrutura de seus genes e também a de seu corpo.
— De seu organismo extraímos os elementos necessários para a criação de sua contraparte feminina.
— Quando despertou novamente, estava modificado.
— Sua polaridade estava dividida.
— Ele era homem, e dele havia sido criada a mulher.
— Mas então esse casal invadiu nossos laboratórios e, inadvertidamente, causou um grande estrago num equipamento essencial que levávamos: a grande árvore de cristais que produzia raios vitais.
— Elohim, pela primeira vez desde que o conheci, ficou zangado.
— Os dois se assustaram, fugiram e se esconderam.
— Elohim achou melhor deixá-los à vontade, fazendo-os acreditar que não os observávamos.
— Eles se reproduziram e sua descendência povoou vários locais do planeta.
— De vez em quando, aparecíamos a um deles, ensinando o que deveriam fazer.
— Sempre se assustavam com nossa aparição e nos adoravam como se fôssemos deuses.
— Elohim, vendo que tudo estava indo bem, determinou que partíssemos para a exploração de outros planetas daquele sistema.
— Ficamos apenas alguns dias fora.
— Quando voltamos, notamos que os humanos estavam estranhos.
— Era como se um brilho de ódio estivesse sempre presente em seus olhares.
— Poucos ainda podiam conhecer o amor pela Criação.
— Não gostamos do que vimos e tentamos fazê-los compreender que eram todos irmãos e que deviam amar uns aos outros.
— Mas eles já eram tantos que nossa voz se perdia no tumulto de suas vozes.
— Escolhemos alguns para serem nossos mensageiros especiais, mas foram todos destruídos pelos próprios homens.
— Já não podíamos aparecer como antes.
— Além de causarmos grandes confusões com nossa presença, inclusive mortes, eles queriam nos agredir a todo custo.
— Então descobrimos, com grande horror, que haviam tornado a conhecer o terrível fantasma da matéria: a desintegração do núcleo do átomo.
— Uma explosão aconteceu.
— Daí em diante, aquele planeta que havíamos reconstruído com tanto amor começou a mergulhar novamente no caos da destruição.
— Tentamos de todas as maneiras fazê-los compreender que a vida é construir, e não destruir.
— Mas as grandes potências dos homens abafaram o som de nossa voz.
— Um ano se passou.
— Elohim está cansado, exausto, envelhecido. Precisa voltar com urgência.
— Decidimos então que só há uma maneira de evitarmos outra catástrofe nuclear.
— Vim pedir reforços ao Grande Mentor para dominarmos as potências humanas e impedirmos, desta maneira, outro caos atômico.
Raphael escutava, horrorizado.
— Não entendo — disse. — De que adianta aos Colonizadores levarem a civilização e o amor a certos mundos?
— Melhor seria destruí-los para sempre.
Daniel suspirou e tentou sorrir.
Todos têm o direito de existir. Nosso dever é construir, colonizar, dar a vida e não a destruição.
— E será que o Grande Mentor dará autorização para uma invasão?
— Ele é totalmente contra esse tipo de solução. Você sabe muito bem.
— Sim, mas creio que não há outra maneira de evitarmos a próxima catástrofe nuclear.
— Vou para o Grande Conselho agora mesmo. Não tenho muito tempo a perder.
— Pense em mim, pequeno Raphael. Espero estar muito em breve com você novamente.
Daniel fez um afago no rosto apreensivo da criança.
De repente, lembrou-se de algo e correu para a câmara de esterilização.
Voltou de lá segurando um pequeno objeto.
Estendeu-o a Raphael.
— Olhe só. Não me esqueci de você.
— Sei que coleciona objetos de todos os planetas.
— Trouxe-lhe isto. É uma coisa usada para entreter as crianças daquele mundo.
Raphael esqueceu-se logo do grande problema e seu rosto se iluminou.
— Deixe-me ver.
Segurou o objeto entre os dedos e o examinou.
— Você ainda não me disse o nome do planeta.
— Preciso saber para catalogar este objeto.
— Nem me lembro com que nome os humanos o chamam, mas nós lhe demos o nome de Geremia, por causa do grande inverno em que o encontramos.
— Como você sabe, nossos antepassados chamavam de Geremia todos os planetas gelados.
Daniel abaixou-se e tocou de leve com os lábios a fronte do menino.
— Adeus, pequeno amigo. Espero vê-lo em breve. Deseje-nos boa sorte.
Com um aceno, saiu da casa e entrou novamente na esfera translúcida.
Raphael saiu atrás dele e fez com a mão um gesto largo de despedida.
Quanto tempo ainda se passaria antes que seu melhor amigo pudesse retornar?
Mais um ano?
Viu a esfera afastar-se e desaparecer no horizonte.
Somente então voltou a dar atenção ao objeto que ganhara para sua coleção.
Era bem interessante.
Parecia um meio de transporte muito rudimentar, sobre quatro rodas.
As partes laterais abriam-se como portas bem antigas.
Também a frente se abria em sua parte superior, mostrando algo parecido com um motor.
Aprendera um pouco sobre motores com o professor de arqueologia.
Revirou o objeto entre as mãos e viu, debaixo dele, alguns caracteres gravados.
Examinou-os atentamente.
Devia ser o código usado pelos humanos daquele planeta, tão perto de uma nova destruição.
Pegou no chão um graveto seco e tentou reproduzir os caracteres na areia branca.
Depois voltou para dentro de casa, para catalogar e arquivar o novo objeto em sua coleção.
Algum tempo depois, alguém passou pelo local onde o menino se despedira de Daniel.
Viu, surpreso, escritos na areia muito branca, os estranhos caracteres que Raphael havia reproduzido:
MADE IN JAPAN
Perspectiva do Colégio dos Magos
Desenvolvimento técnico e desenvolvimento da consciência não são a mesma coisa.
Uma sociedade pode ampliar sua capacidade de criar, modificar a matéria e intervir na natureza sem, necessariamente, desenvolver na mesma proporção discernimento, equilíbrio e responsabilidade. O conhecimento aumenta o alcance da ação humana, mas não define sua direção. Por isso, o desenvolvimento da consciência exige atenção, domínio da vontade e compreensão das consequências envolvidas em cada escolha. Sem esse amadurecimento, capacidades maiores podem apenas ampliar conflitos que já estavam presentes.
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Quanto maior a capacidade de agir, maior a necessidade de consciência.
O Curso de Formação organiza estudo, práticas guiadas e experiência em uma sequência progressiva voltada ao desenvolvimento da atenção, da percepção, da vontade e da participação consciente na vida.
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